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PNI faz 50 anos; agentes comunitários e técnicos garantem capilaridade

Por Lucas Botelho em 18/09/2023 às 09:33:59

H√° sete anos, uma simples ida ao mercado j√° não é a mesma para Maria Lúcia de Araújo, de 54 anos. Seja na √°rea de laticínios ou na de produtos de limpeza, ela não consegue evitar falar sobre vacinas, consultas médicas ou exames que precisam ser agendados. A moradora de Iraj√°, na zona norte do Rio de Janeiro, é agente comunit√°ria de saúde e mora na região que percorre diariamente para levar a capilaridade do Sistema Único de Saúde (SUS) à casa dos pacientes. Refer√™ncia na rua, na padaria, ou no supermercado, Maria Lúcia est√° sempre tirando dúvidas.

"Eu gosto muito, porque é um modo de estar junto da população e das pessoas que realmente estão precisando de um suporte e de uma ajuda. Voc√™ adquire muito conhecimento e consegue entender certas coisas que, quando voc√™ est√° fora da √°rea da saúde, voc√™ não entende", conta ela, que é respons√°vel por visitar e acompanhar o andamento de tratamentos de quase 800 pessoas.

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2023 – A agente comunit√°ria de saúde, Maria Lúcia de Araújo e o técnico em enfermagem, João Victor Pinho durante de busca ativa de pacientes com vacinação em atraso em Iraj√°, na zona norte da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil
Secretaria de Saúde faz busca ativa de pacientes no Rio, por Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil

Uma parte importante do seu trabalho é, mensalmente, conferir por que uma criança que deveria ter sido vacinada não foi levada à Clínica da Família Pedro Fernandes Filho para receber a imunização. Quando o sistema indica que falta alguma dose, Maria Lúcia vai a campo em busca de explicações e, principalmente, de proteger a criança contra as doenças imunopreveníveis.

"A gente acompanha desde a barriga, no pré-natal, e depois e vamos acompanhando até os 7 anos. E a gente tem que ter o cuidado de saber se a mãe est√° dando vacina, se est√° indo às consultas. E, quando ela falta, a gente vai atr√°s para saber o que est√° acontecendo. Como j√° tem esse vínculo, elas não ficam melindradas e contam para gente por que não vieram. É um vínculo que a gente cria com as mães desde a gravidez."

O trabalho de busca ativa de vacinação, que significa resgatar quem não se vacinou, é considerado uma das estratégias mais importantes na recuperação das coberturas vacinais do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que completa 50 anos em 2023. E quem arregaça as mangas e gasta as solas em busca dessas crianças, adultos e idosos são os 295 mil agentes comunit√°rios de saúde do país e os 193 mil enfermeiros e técnicos de enfermagem envolvidos com a imunização nas unidades de saúde, que também aplicam os imunizantes na casa das pessoas que não consegue chegar até a sala de vacina mais próxima.

A enfermeira Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, trabalha com ações de capacitação para profissionais da ponta, e destaca que o papel de agentes comunit√°rios como Maria Lúcia é essencial para que as vacinas cheguem a todos, inclusive em regiões em que famílias podem ter dificuldades de se deslocar até uma unidade de saúde ou sala de vacina.

Rio de Janeiro (RJ) - Mayra Moura para a matéria sobre rotatividade de profissionais na vacinação impacta coberturas Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Rio de Janeiro (RJ) - Mayra Moura para a matéria sobre rotatividade de profissionais na vacinação impacta coberturas Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação - Arquivo pessoal/Divulgação

"O agente comunit√°rio de saúde é imprescindível. É ele que consegue dar capilaridade ao programa. É ele que tem o acesso a cada casa, de cada pessoa. Ele é uma pessoa muito vista pela comunidade, então, ele é uma refer√™ncia. Esse trabalho do agente que est√° na ponta, que conhece as famílias, é muito importante para a adesão dessas famílias", sublinha.

"O sucesso do programa, primeiro, é porque a gente consegue essa capilaridade que vem com os agentes, as estratégias de saúde da família, e também porque a equipe dentro da sala de vacina vai a campo também fazer as vacinações. Eles são os profissionais de refer√™ncia da população."

Quando Maria Lúcia entra em contato com uma família que não vacinou a criança no momento recomendado e fica constatado que aqueles respons√°veis não vão conseguir lev√°-la à sala de vacina, o técnico de enfermagem João Victor Pinho, de 23 anos, carrega sua caixa térmica com as doses necess√°rias e a acompanha para colocar em dia mais uma caderneta de vacinação. O técnico conta que é preciso informar devidamente cada respons√°vel antes de aplicar as vacinas, principalmente em tempos de fake news.

"Os pais são informados de quais são as vacinas, contra o que elas protegem e quais são as reações que podem acontecer. Isso é importante principalmente depois dos períodos que passamos, em que foi tão falado que vacinas fariam mal. As pessoas estão com mais desconfiança", conta ele.

"Ver as crianças desde a primeira vacina e fazer esse acompanhamento é muito gratificante. Esse sistema de busca ativa que nós realizamos, com essa import√Ęncia de irmos atr√°s, é porque reconhecemos que h√° uma necessidade, mas muitas vezes não h√° uma disponibilidade dos pais e respons√°veis. É uma experi√™ncia única acompanhar a trajetória das crianças que vem aqui se vacinar", completa.

Uma das visitas de Maria Lúcia e João Victor foi à casa dos trabalhadores autônomos Danielly Martins, de 23 anos, e Patrick Rodrigues Viana, de 26. O casal tem dois filhos, e o mais novo, Murillo Luiz Martins, de 7 meses, acabou perdendo a terceira dose da vacina pentavalente, que previne contra tétano, difteria, coqueluche, hepatite B e contra o vírus Haemophilus influenzae B, causador de meningites e pneumonias. Para quem est√° na informalidade, perder um dia de trabalho muitas vezes não é uma opção, conta Danielly, que também aproveitou a visita para discutir métodos contraceptivos com Maria Lúcia.

Rio de Janeiro (RJ), 16/09/2023 – A família do beb√™ Murillo Luiz Martins, sua irmã Maria Helena Martins, os pais Patrick Rodrigues Viana e Danielly Martins durante atendimento para vacinação em resid√™ncia, em Iraj√°, na zona norte da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 16/09/2023 – A família do beb√™ Murillo Luiz Martins, sua irmã Maria Helena Martins, os pais Patrick Rodrigues Viana e Danielly Martins durante atendimento para vacinação em resid√™ncia, em Iraj√°, na zona norte da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil - Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil

"Só de eu não ter que ir na clínica, com o tanto de coisa para fazer no meu trabalho e em casa, j√° me ajudou bastante", conta Danielly, que estava incomodada com o atraso da vacinação, mas não conseguia reservar um hor√°rio entre a rotina de trabalhar e levar a filha mais velha para a creche.

"Sempre tento deixar todas [vacinas] em dia. Eu sempre vejo fake news, mas eu não acredito. Eu quero o bem para os meus filhos. Tem que estar vacinado e ponto. Eu acredito no SUS e acabou", acrescenta ela.

Na visita, João Victor conferiu a caderneta de vacinação de Murillo e aproveitou a oportunidade para aplicar a terceira dose da vacina inativada contra a poliomielite, que também é recomendada para o sexto m√™s de vida.

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Mayra Moura destaca que a capacitação dos profissionais da ponta é fundamental para que eles tenham clareza na hora de informar, segurança para vacinar e também saibam reconhecer oportunidades como essa quando a criança est√° disponível para ser imunizada.

"Se não t√™m a capacitação, esses profissionais não vão ter a segurança para fazer tudo isso. Se o agente de saúde não tem uma capacitação específica para vacina, ele não vai conseguir avaliar uma carteira de vacinação, pelo menos para identificar o que possivelmente est√° faltando, ou se existe alguma vacina indicada para um adulto, idoso ou adolescente", diz Mayra Moura, que acrescenta. "E o profissional de enfermagem na sala de vacinação também precisa ter muito treinamento, informação e segurança, porque a gente sabe que tem muito profissional de saúde que acaba tendo até questões relacionadas à vacina, porque não tem certeza, ouviu dizer alguma coisa e também fica inseguro. E, se um paciente questionar, ele não tem segurança para responder. Ter esse profissional bem informado e seguro é fundamental para conseguir a adesão do paciente."

Integrante da coordenação de epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Maria Rita Donalisio alerta que, apesar da crescente complexidade dos calend√°rios de vacinação e do aumento da desconfiança das famílias em relação às vacinas, o cen√°rio atual no Brasil é de contratos de trabalho precarizados nas salas de vacina e nas estratégias de saúde da família, com baixos sal√°rios, terceirização e alta rotatividade.

Rio de Janeiro (RJ) - Rita Donalisio para a matéria sobre rotatividade de profissionais na vacinação impacta coberturas Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Rio de Janeiro (RJ) - Rita Donalisio para a matéria sobre rotatividade de profissionais na vacinação impacta coberturas Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação - Arquivo pessoal/Divulgação

"É preciso reforçar essas equipes locais de saúde da família, da atenção prim√°ria, porque é na atenção prim√°ria que a gente garante a integralidade do cuidado", afirma. "É preciso investimento em carreira, estabilidade, concursos, para que esses profissionais possam ser treinados e não ter tanta rotatividade, e adquirirem cada vez mais experi√™ncia na vacinação. Investir nos concursos e nas carreiras, com remuneração justa, é investir no SUS e no PNI."

Capacitar, valorizar e manter profissionais como o agente comunit√°rio de saúde, defende Maria Rita Donalisio, é estratégico para a recuperação das coberturas vacinais: "A gente precisa resgatar no território essas pessoas que, muitas vezes, estão desinformadas. E o agente comunit√°rio conhece por nome essas pessoas, ele é do território e t√™m passagem livre. E tudo isso pensando que o atendimento tem que ser integral. E não só a criança. O idoso, o hipertenso, o diabético precisam ser incentivados a tomar vacinas."

Rio de Janeiro (RJ), 15/09/2023 – A coordenadora geral da ONG Criola, Lúcia Xavier posa para fotografia para a Ag√™ncia Brasil. Foto:Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil
Lúcia Xavier, da ONG Criola, acredita que compromisso do servidor público com o cuidado à saúde faz diferença para a população - Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil

Coordenadora e fundadora da organização não governamental (ONG) Criola, a assistente social e ativista dos direitos das mulheres negras Lúcia Xavier também v√™ como primordial a atuação desses profissionais na mobilização da comunidade em prol do sucesso da vacinação. Ela lembra que as grandes campanhas de vacinação da década de 1980 contaram com forte participação social, e isso também foi resultado da articulação dos profissionais da ponta.

"Os 50 anos de bons resultados de PNI vão ao encontro não só da experi√™ncia, do esforço e da atuação política desses profissionais, mas também da própria comunidade, que é convidada a apoiar as campanhas de imunização", afirma ela.

"A presença desses profissionais no campo, trazendo a responsabilidade, mas também o compromisso do servidor público com o cuidado à saúde faz muita diferença para a população. Traz a ideia do cuidado, da participação e da confiança no serviço público. Isso quem passa para a população é o profissional de saúde.

Resultados

O trabalho de ir à casa das famílias é caro e mobiliza profissionais que t√™m outros afazeres na unidade de saúde, mas d√° resultado. No Rio de Janeiro, as ações de Maria Lúcia e João Victor são parte do programa Geovacina, que começou em maio para fortalecer a busca ativa. Desde então, o número de unidades com cobertura vacinal de seus pacientes menor que 80% caiu de 134 para 44. J√° as que tinham entre 80% e 95% de cobertura passaram de 100 para 173. Por fim, as que que j√° tinham batido a meta de pelo menos 95% de cobertura aumentaram de duas para 20.

O programa usa como refer√™ncia a cobertura da vacina pentavalente, que deve ser aplicada aos 2, 4 e 6 meses e estava em atraso no caso do Murillo Luiz. Os técnicos e agentes comunit√°rios de saúde, ao procurarem as famílias que perderam o prazo, conferem toda a caderneta de vacinação, o que também tem elevado a cobertura de outras vacinas.

A imunização contra a poliomielite, por exemplo, saltou de uma cobertura de 66,8%, em 2022, para 97,9%, em 2023, alcançando, no Rio de Janeiro, a meta de 95% definida pelo Programa Nacional de Imunizações. A vacina meningocócica C também apresenta melhora, de 67,2% para 86,3%, embora ainda esteja abaixo da meta. J√° a pentavalente avançou de 66,1% para 80,5%.

O secret√°rio municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, destaca que a busca ativa também precisa vir acompanhada do fortalecimento da estratégia de saúde da família, j√° que essas equipes aplicam a imensa maioria das vacinas do Programa Nacional de Imunizações. No Centro de Intelig√™ncia Epidemiológica do Rio de Janeiro, um telão do Geovacina mostra em tempo real todas as crianças em idade de se vacinar como pontos que marcam seus endereços na cidade. As que estão em dia com a pentavalente são pontos verdes, e as que estão em atraso são pontos vermelhos.

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2023 – O secret√°rio municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz durante entrevista à Ag√™ncia Brasil no Centro de Operações (COR), na Cidade Nova, região central da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2023 – O secret√°rio municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz durante entrevista à Ag√™ncia Brasil no Centro de Operações (COR), na Cidade Nova, região central da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil - Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil

"Com o Geovacina, consigo ver quais crianças que estão no Sistema Nacional de Nascidos Vivos que j√° poderiam ter tomado a primeira dose, e as que j√° tomaram a primeira dose e que não tomaram a segunda ou a terceira dose, e busc√°-las no mapa. Cada pontinho é uma criança", explica o secret√°rio, que acrescenta que o sistema informa a clínica da família e a equipe de saúde da família que ser√° respons√°vel por busc√°-la.

"O Programa Nacional de Imunizações avançou muito com a tecnologia em tempo real. Hoje, a gente consegue saber quem tomou vacina ou não tomou, online e em tempo real", destaca Soranz.

Para retomar as coberturas vacinais, a prefeitura do Rio de Janeiro tem adotado uma série de estratégias previstas no leque de ações de microplanejamento para vacinação disponibilizado pelo Ministério da Saúde, como a vacinação nas escolas, a vacinação extramuros em locais de grande circulação, pontos de vacinação com hor√°rio estendido e a própria busca ativa.

Segundo Soranz, a busca pelas famílias tem mostrado que os principais motivos para o atraso na vacinação nas crianças são esquecimento, falta de tempo ou algum adoecimento no momento em que a vacina estava prevista. "Um percentual muito pequeno é de famílias que não acreditam ou t√™m medo da vacinação. Felizmente, no Rio de Janeiro, essa é uma exceção."

Criada no condomínio em que hoje confere cadernetas de vacinação e orienta famílias, a agente comunit√°ria de saúde Bruna Maluf, de 28 anos, trabalha na mesma clínica da família que João Victor e Maria Lúcia, que conta ter visto a colega de trabalho crescer.

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2023 – A agente comunit√°ria de saúde, Bruna Maluf durante entrevista à Ag√™ncia Brasil na Clínica da Família Pedro Fernandes Filho, em Iraj√°, na zona norte da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2023 – A agente comunit√°ria de saúde, Bruna Maluf durante entrevista à Ag√™ncia Brasil na Clínica da Família Pedro Fernandes Filho, em Iraj√°, na zona norte da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil - Tomaz Silva/Ag√™ncia Brasil

Na função h√° um ano, Bruna diz que o contato com os vizinhos e outros usu√°rios do SUS tem ensinado lições importantes sobre como funciona a saúde pública, quais dúvidas precisam ser esclarecidas e que fatores influenciam nas decisões de cada família.

"Eu moro no meu território desde os 4 anos, então, isso me facilita muito. Quando nós andamos pela rua, minha mãe brinca que é como se eu tivesse virado política, porque estou andando na rua e dando tchau para todo mundo. Quando alguém não me conhece e desconfia, eu falo que pode ficar tranquilo, que eu moro aqui", conta, ela, que est√° se formando técnica de enfermagem e aprendeu a entender melhor que tipo de dúvidas são mais frequentes e como respond√™-las. "O trabalho me ajuda muito no curso, e o curso me ajuda muito no trabalho."

Fonte: Agência Brasil

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